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Bem-vindo a nossa casa.

Aqui contamos histórias sobre nossas peripécias dando a volta ao mundo em nosso veleiro. Nós somos: Fabio, Miriam, Caio e Rafael e não sabemos onde vamos parar, só sabemos que vamos "Para onde o vento vai".


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Marcas e passagens

Quanto mais o tempo passa menos sei sobre as pessoas e sobre as coisas ! A vida simples de velejador, a conquista diária, acordei ! Quais são as marcas de uma vida de descobrimentos ? O que descobrimos sobre nós mesmos.

Acho que este deve ser o objetivo. A auto descoberta coloca-nos diante da vida com a forte determinação de continuar. A cada descoberta uma marca, as vezes indelevel, permanece em nós. Marcas que muitos acabam por chamar de experiências. Algumas amargas, porque a vida precisa de equilíbrio, mas as experiências vão moldando o barro até nos transformar no que somos. O que eu estou fazendo agora quebra o barro endurecido de uma vida estagnada e mistura água para gerar barro novo e continuar o processo de moldagem.

Isso não tem fim, mas deixa marcas. Algumas são interiores outras eu fiz questão de deixar do lado de fora. Os que me conhecem pessoalmente saberão que houve uma passagem e que essa passagem deixou uma marca e que essa marca serve para lembrar para mim mesmo e para quem quiser ser lembrado: É POSSÍVEL.

domingo, 7 de agosto de 2011

Travessia do Atlântico - Parte II - Detalhes Técnicos

Para os amigos velejadores

O anticiclone dos Açores tem este nome porque tem seu centro próximo dos Açores e por ser uma zona de alta pressão mantém a circulação do ar no sentido horário (hemisfério norte). A travessia dos Açores para Europa (Portugal ou mais para Baixo entrando no mediterrâneo por Gibraltar) deve ser feita sempre aproveitando o anticiclone. Veja seu comportamento no link abaixo


Os ventos que ajudam na travessia são os que vem de Oeste. Estes ventos são próprios do Anticiclone e devem ser aproveitados. A estratégia é subir de São Miguel que fica a 38 Norte para 40 ou 41 Norte com o vento pela alheta e seguir assim até próximo da costa Portuguesa.

Em Portugal é comum você encontrar ventos de Norte de 20 a 30 nós com ondas de 4 a 5 metros, então quanto mais você estiver ao Norte melhor para a chegada. Mas não exagere. Se passar de 41 você pode pegar ventos bem mais fortes que sobem junto com as baixas que passam sobre o anticiclone seguindo para Nordeste.

O mais importante é o sincronismo da saída e da chegada. Espere o momento certo. Eu fiquei esperando este momento da travessia por duas semanas antes de largar amarras em São Miguel.

Nas 788 milhas desta pernada pegamos quase sempre ventos de través e alheta (tanto de bombordo quanto de boreste) mas entre as mudanças de vento algumas horas de calmaria. Desta vez usamos pouco diesel.

Durante a travessia você deve baixar as previsões (eu uso o iridium para isso) para áreas menores que podem lhe ajudar a fazer acertos no rumo ou preparação para mudanças (elas podem ocorrer e é melhor estar preparado)

Fora isso a preparação para 10 dias (fizemos em 7) com suprimentos, água, diesel, etc.

Agora fica um detalhe interessante. Mais uma ferramenta que vale a pena ter no seu PC. O software se chama Visual Passage Planner 2. Ele tem todas as cartas piloto do mundo inteiro e ajuda a fazer o planejamento de qualquer travessia.

O mais importante: antes de planejar a travessia converse com quem já fez, de preferência mais de uma vez, a mesma travessia e pegue dicas. Lembre-se que a responsabilidade sempre será sua porque a decisão de sair é sua sempre.

Seja resoluto na questão meteorológica. Se não tiver segurança: Não SAIA.

Veja o exemplo abaixo:


O mesmo anticiclone dos Açores uma semana antes de nossa saída. Eu podia ter saído, mas repare o tamanho da pista de vento com 20 nós e os ventos próximos de Portugal em 25 a 30 nós. Passaria 6 dias orçando e forçando a tripulação e o Flyer sem necessidade. Estava tudo pronto para sair e quando eu decidi não atravessar foi só cara feia, mas a decisão foi tomada e, em retrospectiva eu acredito que foi correta.

A travessia do Atlântico

Um certo frio na barriga.

Pronto: Estamos do outro lado do Atlântico. Sabe aquela imensidão de água sem fim; chegamos do outro lado. O frio na barriga aumenta. Puxa: É assim que nos sentimos então... É assim que se sentiram os navegadores... Os exploradores...

A verve de correr os sete mares tem uma explicação: nós simplesmente gostamos de aventuras. Para quem quer saber qual o segrego aqui eu conto: A coragem para largar amarras e sair. Esse foi o ponto crucial de nossas vidas.

O resto veio sem pressa e na hora certa. Associar-se com as pessoas corretas, amizades, recursos, oportunidades, conhecimento e vivência para nós e para nossos filhos. E olha que o Flyer tem somente 30 pés e somos 4 a bordo !!! Falta luxo, sobra calor humano.

Que oportunidade eles estão tendo... Acho que eles saberão dar valor a isto dentro de alguns anos. Agora é só curtir e aprender: Aprender história nos museus, geografia nos lugares, línguas com os nativos ( e precisamos aprender a falar o português novamente ... ) e aprender quão diverso o mundo pode ser...

A travessia da minha vida já foi feita. Aqui eu declaro que vou colocar um brinco na orelha para identificar esta fase. Atravessei o oceano de incertezas e cheguei do outro lado para contar a história.

O gosto de quero mais é muito intenso, então vamos atrás dos outros 6 mares...